terça-feira, 24 de novembro de 2015

Comunicado – A Rússia em Pauta

André Luis Paulo Tomasi–Vshivtsev, que fez o curso de Física na Universidade de Moscou – Lomonosov de 2007 a 2013, tem se especializado em planejamento de passeios turísticos e formação de grupos para viajar à Rússia. Ao lado disso, presta assessoria para quem desejar estudar nesse país. Ele oferece ainda cursos de russo com duração de 4 a 18 meses, preparando as pessoas para o aprendizado e o conhecimento da língua e da cultura russas.
Os interessados poderão entrar em contato com André Tomasi pelo e-mail: “andre@cbr.tur.br” e site: “www.cbr.tur.br”.


terça-feira, 17 de novembro de 2015

CANTINHO DA SAUDADE

TEMPOS DE ESTUDANTE NA URSS – DORI C. BARBIERI

Crônicas variadas – 1968-1974

PARTE III – Crônica 4 (Continuação da crônica 1): ...1968 no Baikonur e em Tashkent -  Uzbekistão


Após as infindáveis horas vividas no inferno gelado dentro do hangar, anunciou-se que em breve embarcaríamos no IL-18 para Tashkent, imaginamos que o suplício estava terminando. Mera ilusão! No curto trajeto até a aeronave na pista, ocorreram as fotografias mencionadas anteriormente e na sequência, subi a escada do avião sentindo as luvas parecer grudando no corrimão da mesma, mas imaginando encontrar, ao final, um salão de passageiros caloroso e confortável.

Foto 1 - Embarque no Baikonur: Dori e o guarda kazak que queria impedir as fotos

O avião passara dezenas de horas ao relento e todo ele havia alcançado inclusive internamente, a temperatura do ambiente externo, com 30 ou mais graus negativos, não mostrando ainda, nenhum sinal de vida própria. Pensei que minhas roupas pudessem grudar no assento – Não grudaram! Mesmo com todos os passageiros sentados, a porta permanecia aberta e a aeronave, sem vida mecânica. Só depois de meio-hora foi possível ver as hélices de apenas um dos motores se mover. Nos dez minutos iniciais, os giros delas eram como a de um ponteiro dos segundos de um relógio. Às vezes paravam para depois recomeçar a girar com mais rapidez. Finalmente, ocorreu a explosão interna própria do motor. Creio que só para este primeiro motor, e eram quatro, passaram-se uns 50 minutos para atingir giro máximo. Quanto ao aquecimento interno, nada! Exceto o calor humano e o vapor das narinas, que a essa altura ajudavam aquecer o avião. Assim, com este gasto de tempo do primeiro motor, sucessivamente foram ligados os três motores turbo hélice restantes. Creio que o procedimento consumiu umas três horas de espera, tempo suficiente para nós, os passageiros, esquentássemos o interior do avião, ou para morrer sufocados se a porta não tivesse estado aberta. Certamente, foi explicado aos demais passageiros em língua russa e uzbeke o motivo daquela lentidão, que só fomos entender mais tarde: rolamentos, mancais, eixos e peças móveis quando expostos a temperaturas tão baixas, são como cristais que, com o menor impacto ou atrito, podem se danificar.

Ao chegarmos a Tashkent, procuramos um taxi e rumamos para o Hotel Intourist, o hotel dos turistas na URSS, com passaportes de estrangeiros, conversa de estrangeiros e o mais importante, moeda forte - as verdinhas se fosse preciso, o Caio disse que tinha em espécie, e eu, em travellers. Tudo em vão. Os funcionários e o gerente do hotel foram inflexíveis: Só com reserva prévia. E o hotel, parecia vazio. (Penso agora, que o forte frio atípico para a região pôde ter provocado o colapso do sistema de aquecimento e tinham vergonha de admitir isto para duas autoridades brasileiras). Contudo, ajudaram-nos ligando para outros lugares e no final, nos indicaram um tipo de pousada para onde o taxista nos conduziu.  Mas lá, não recebiam estrangeiros. Voltamos ao hotel para tentar de novo e de novo, nada. O final do dia se aproximava e o pavor do frio, assustava. O taxista nos levou então para uma casa de estudantes. Mas, aproveitando a ausência dos estudantes que haviam entrado em férias, o sistema de calefação estava em manutenção. Creio que foi o taxista que convenceu um casal de velhinhos que cuidava do local a nos receber para pernoitar. O vovô e a vovó nos alertaram que, água quente só havia no andar térreo, próximo à cozinha, e o quarto, seria no terceiro andar, só com cama e roupas, sem calefação. Tínhamos chegado ao paraíso!

 
            
 Foto 2 - Dori em frente à Casa de Estudantes            Foto 3 - Caio e Dori passeando por Tashkent

Na manhã seguinte o casal nos serviu o “café” (na realidade o chá) e começamos a nos apresentarmos. O fato de sermos da terra do Pelé e Garrincha – algozes dos russos na copa de 58 – selou nossa amizade. (Algozes, pela frustração causada e não por outro motivo.)  Mandamos todos os hotéis e palácios da cidade às favas e fizemos do local, nossa base verde-amarela na União Soviética. Saíamos de manhã para conhecer a cidade e seus arredores, situada junto à antiga rota da seda e voltávamos ao final da tarde.
Vimos e vivemos os costumes e os hábitos da culinária local: macarrão e variedades de tortéis, chás de primeiríssima (no sabor) acompanhados de pelotas de queijo duro de cabra para roer, passas de frutas ou melão seco, discos de pão assado na pedra ou em tijolos, o risoto plôv e os espetinhos deliciosos de carne de ovelha karakul, cuja parte mais apreciada é o rabo, que tem a forma e textura de um cupim de zebu, pendurado na traseira.

Frequentamos as mesquitas e os barzinhos da cidade, aliás, as casas de chá daquele povo amável. (Os burocratas antipáticos do hotel deviam ser, todos russos!)

Foto 4 - Dori e o lanche de espetinho de ovelha com macarrão e a chaleira do chá

        
     Foto 5 - Dori defronte a uma mesquita                          Foto 6 – Dori e um Uzbek típico -
                             da cidade velha                                                               Tashkent 1968        
                                 
        
                             Foto 7 - Dori numa Casa de Chá típica da época - Tashkent 1968

O frio amainava aos poucos, mas ainda era muito forte e nos torturava. Depois de quatro ou cinco dias em Tashkent decidimos voltar para Moscou. Uma das formas de gastar as infindáveis noites das férias no inverno de janeiro era jogando canastra com brasileiros e latinos no quarto do Carioquinha na Rua Mosfilm. Ali o revezamento dos presentes entre as partidas e o preparo de feijoadas ou macarronadas nas madrugadas, era intenso e agitado. O Caio, creio eu, passou o resto das férias de inverno se aquecendo nas saunas de Moscou, pois andou meio desaparecido.
Foi este o meu batismo na Ásia Central em tempos de um rigoroso inverno russo.




segunda-feira, 2 de novembro de 2015

CANTINHO DA SAUDADE



TEMPOS DE ESTUDANTE NA URSS – DORI C. BARBIERI

Crônicas variadas – 1968-1974

PARTE I I – Crônica 3

- Dori Carlos Barbieri, 1946, natural de Seara – SC.
- Formado em Agronomia no ano de 1974 na U.A.P. Patrice Lumumba, Moscou.
- Ao retornar ao Brasil, exerceu atividades profissionais inicialmente  em cooperativa agrícola e, depois, em diversas empresas integradoras de produção animal e de alimentos em funções ligadas à Nutrição Animal ou de Gerência Técnica de Agropecuária em SC, no interior do PR, de SP e no MS.
- Aposentado desde 2007; atualmente desmobilizado de qualquer atividade profissional.
- Casado desde 1979 com Vilma Zanette e tendo um casal de filhos; a Larissa, que está próximo a nós, e o Pável, que nos deixou em definitivo com 17 anos.
- Residência atual em Balneário Camboriú - SC.

3) O ‘colombiano’, de sotaque espanhol-mexicano  
  e de um inglês-californiano
Na virada do ano de 2014 aqui no norte catarinense onde moro, visitou-me um ex-colega de faculdade em Moscou com sua atual esposa sueca. Ele já tinha sido casado na URSS, com filha de militar soviético de respeitável patente, e me lembrou que eu tinha sido seu padrinho de casamento de última hora, em 1973, junto com uma colega mexicana. (Havia esquecido!). Nós moramos juntos, no mesmo quarto, na casa dos estudantes da Rua Pávlovskaia nos anos 1972/73/74, com mais um ucraniano. O sujeito dizia ser colombiano e se chamava Carlos Sanches. Mas que, na verdade, era da América do Norte, como me relatou agora. Revelou também que estava vivendo e estudando em Paris quando eclodiu a revolta estudantil de 1968, na qual ele teve participação ativa. Abafada a revolta, foi com o apoio do serviço secreto soviético - um dos insufladores da mesma - que obteve nova identidade, a de colombiano, conseguindo assim se evadir da França. (Não é o Carlos Chacal, o venezuelano Ilítch Ramires, que cumpre pena atualmente na França e que pode ser assunto de uma crônica futura, pelo breve período convivido em 1968/69.) Mais tarde, quando Moscou teve conhecimento de outros antecedentes seus, teria sido considerado pelos soviéticos como espião ou agente duplo. (Queria o que?). Foi neste período que os russos o colocaram a morar comigo e o ucraniano. Certamente o ucraniano era o olheiro. A história toda da vida do Carlos é inverossímil à primeira análise. Mas tudo se liga agora quando ele menciona detalhes e seus motivos, também vividos por mim, entre os quais os pavorosos pesadelos que o perturbavam à noite, quando aos gritos pedia por socorro e ajuda, ou ditando ordens. Eu o despertava e o Carlos:...áhhh...tudo bem...tudo bem! (Em 2015, isto me parece um filme de ficção). Evidente que ficou a pão-e-água por quase três anos. E eu o ajudava sem saber quem ele realmente era e, quando o questionava, alegava ter perdido o passaporte e, por isso, nem sempre recebia o estipêndio (bolsa de estudos). Em Moscou, duas semanas antes de recebermos nossos diplomas de engenheiro agrônomo, ao entrar no quarto eu o encontrei apavorado e mexendo desordenadamente em papéis. Ao ser perguntado do motivo, disse que seria deportado para a Finlândia no dia seguinte, e evasivamente, por estar envolvido em coisas ilegais - pensei em drogas. Eu precisava sair, pois havia entrado para pegar alguma coisa e ao retornar ao quarto, meia hora depois, para minha surpresa, nada mais existia do colega colombiano, enquanto que o ucraniano passou a não mais dormir no quarto nos quinze dias que antecederam meu retorno ao Brasil. Passados 40 anos, nos reencontramos agora - sem saber do destino de cada um neste intervalo -, ocasião em que ficaram claros para mim os detalhes desta história toda que eu não compreendia: O Carlos não foi deportado, mas sim fugiu da URSS, só com papéis do histórico da faculdade e roupa do corpo, com auxilio do serviço secreto alemão ocidental, que lá possuía contatos com certos professores (as) da Alemanha Oriental. Ele agora me afirma que, no fundo no fundo, eu o ajudei a não morrer de fome e do frio de Moscou, nos seus três anos de vacas muito magras e de perspectivas aterradoras, sem documentos, nacionalidade e família. Hoje é cidadão sueco aposentado, casado com esposa também sueca. Possuem filhos crescidos e já profissionais. Viveram no Brasil por 7-8 anos no final e início da década de 80 e 90, ocasião em que me procuraram e não conseguiram me encontrar. Eles tiveram aqui cargos públicos federais e, também, na iniciativa privada. Ele desejava que alguém comprovasse para sua família essas histórias inverossímeis, de parte da vida dele. Após a fuga da URSS, o Carlos jamais retornou ao país de origem. Ele me considera um irmão, único, pois nada lhe restou emocionalmente da família anterior à sua ida para a União Soviética.

Em breve o Carlos me visitará no Brasil. Iremos brindar novamente as belezas da vida e os seus percalços superados, sabendo que, para muitos, a vida não permitiu superá-los. E vamos filosofar também!

Foto 1 – Dori (à direita) e sua turma na Sibéria em 1970: esta foi a minha 
contribuição para as ferrovias da Sibéria.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O PAPA FRANCISCO

Para mim, não há dúvidas de que o Papa Francisco está mais para Galileu do que para Giordano Bruno. Dizem que nos tempos de arbítrio do regime militar na Argentina – uma ditadura brutal que assassinou milhares de pessoas – o cardeal Mario Jorge Bergoglio teria sido conivente com a repressão, sequestros e assassinatos cometidos pela Junta Militar.
               Giordano Bruno – filósofo napolitano e frade dominicano que viveu no século XVI. Foi condenado à morte na fogueira da Santa Inquisição como herege, por apontar erros teológicos na doutrina da Igreja e por defender o heliocentrismo de Nicolau Copérnico. No Tribunal, ofereceram-lhe a chance de abjurar suas ideias. Não quis! Preferiu morrer a renegá-las.
                Galileu Galilei – considerado o “pai da ciência moderna”, foi um físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano que viveu na segunda metade do século XVI e na primeira do século XVII. Avançou muito na comprovação do heliocentrismo. Foi também julgado pela Santa Inquisição e condenado: (1) a abjurar publicamente suas ideias e (b) à prisão perpétua. Seus livros  foram incluídos no Index, portanto censurados e proibidos. De público, Galileu abjurou suas ideias, mas para seus botões, proclamou: eppur si muove! – “contudo ela [a Terra] se move!”.
                A prisão perpétua foi, depois, comutada para confinamento, inclusive em casa. Assim, pôde ele dar sequência às pesquisas e continuar sua contribuição ao desenvolvimento da ciência. Quando Isaac Newton disse: “Se vi mais longe, foi porque me apoiei no ombro de gigantes”, certamente estava se referindo também – e principalmente – a Galileu.
Papa Francisco – O filósofo, escritor e linguista italiano Umberto Eco, em entrevista à jornalista Ilze Sacamparini nesta semana, disse – em brincadeira - uma frase interessante sobre o Papa: “Ele não é argentino, é paraguaio!”. Explicou: ele é um sacerdote herdeiro das tradições jesuíticas do século XVII, que surgiram a partir de 1607 na Província do Paraguai (que compreendia o atual Paraguai, o leste da Bolívia, a Argentina, o Uruguai e o sudoeste do Brasil).
Luiz Carlos Azenha, em excelente texto, ajuda-nos a entender. Ele comenta o episódio em que o presidente Evo Morales deu de presente ao Papa Francisco uma escultura de madeira que mostra Cristo crucificado em foice e martelo. Representantes da grande mídia latino-americana e brasileira chamaram de “aberração” e de “estupidez” a atitude de Evo.
             Pior, faltando com a verdade ao dizer que o Papa teria manifestado desconforto com o presente e dito “Não se faz isso!”, quando o áudio deixa claro que o que ele disse, sorrindo, depois que Evo explicou a origem do mesmo, foi: “Não sabia disso!”. Afinal, Francisco – jesuíta que é - não desconhece a experiência histórica da Companhia de Jesus, que criou a chamada “República Comunista Cristã dos Guarani”. Foi ela que, por mais de um século e meio, permitiu que os índios, “acedessem ao estatuto de cidadãos livres, em tudo semelhantes aos espanhóis e, em muitos aspectos, culturalmente superiores”.
             O que a mídia conservadora não sabe – ou esconde -, é que a referida escultura de Cristo crucificado em foice e martelo é uma reprodução daquela criada pelo padre jesuíta espanhol Luis Espinal, um teólogo da libertação que tinha ligação com os movimentos sociais da Bolívia e que foi assassinado por paramilitares bolivianos em 1980. Por outro lado, o Papa Francisco sabe que a foice e o martelo, em cruz, simbolizam a unidade dos camponeses e operários.
           Por sua coragem de retomar os princípios básicos da Teologia da Libertação e de denunciar o capitalismo selvagem, chamando-o de “ditadura sutil”, os setores conservadores brasileiros e latino-americanos odeiam o Papa Francisco. Neste sentido, o comentário de Paulo Henrique Amorim é preciso: “No Brasil de hoje, se dependesse da oposição que temos o pontífice, provavelmente, estaria sujeito a um processo de impeachment ou coisa parecida. Isso se alguém não pedisse a recontagem dos votos dos cardeais que o elegeram”.
                Não há dúvidas de que o Papa Francisco é um papa que está anos-luz à frente de todos os seus antecessores. O sorriso constante em seus lábios e a coragem de dizer a quem precisa ouvir as verdades que precisam ser ditas – principalmente aos que se consideram donos do Mundo e que vivem a promover a destruição e a barbárie – faz dele um papa com um lugar de destaque em toda a história do Vaticano.
            Principalmente por sua simplicidade e humanismo!
            O papel que ele teve na reaproximação diplomática entre Cuba e os EUA e – numa mediação junto com Raul Castro – na construção do acordo entre o governo colombiano e as FARC’s, como passo decisivo para alcançar uma paz definitiva no país depois de 50 anos de guerra civil, fala também de sua estatura política.
            Como diz Mauro Santayana, “Francisco é um farol a iluminar o que resta de sensatez na espécie humana – uma bússola para indicar o caminho nestes tempos sombrios, em que as forças do ódio e do atraso insistem em tentar impedir que amanheça, neste novo século, um novo dia”.

Emerson Leal – Ex-vice-prefeito de São Carlos por dois mandatos.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

CANTINHO DA SAUDADE

TEMPOS DE ESTUDANTE NA CCCP – DORI C. BARBIERI

Crônicas variadas – 1968-1974

PARTE I – Crônicas 1 e 2

Os anos vividos por mim como estudante na URSS, na Universidade Patrice Lumumba, propiciaram oportunidades de vivenciar situações, embora ocorridas a quase meio século, ainda permanecem um tanto quanto exóticas, apesar da velocidade com que acontece a desmistificação deste tipo de ocorrência. Eu as considero como uma bagagem da vida, fundidas no mérito e na sorte. A internet tem resgatado situações passadas, que em reavivando minhas lembranças e emoções, justificam deixá-las aqui registradas.

Foto 1 - Dori com esposa (Vilma) e filha (Larissa).

1) Final de dezembro de 1968, no Baikonur? - Não havia se passado quatro meses de CCCP e eu mal conseguia pedir comida e cumprimentar as pessoas em russo. O Caio, o paulista de Itapira, me convida e insiste para que passemos as férias de inverno na região de Tashkent – Uzbekistão, cidade onde tinha ocorrido um terremoto devastador, dois anos antes. Com alguma dificuldade compramos as passagens aéreas, até porque, não sabíamos da necessidade de autorização da universidade para se ausentar de Moscou. Sem hotel ou outro local reservado para onde ficar no Uzbekistão, embarcamos num Iliuchim 18, avião semelhante aos Electra 2, que faziam a ponte aérea Rio-SP nos anos 60 e 70. Na metade do caminho veio um aviso mal compreendido por nós, de que iríamos pousar num aeroporto aleatório antes do destino final, pois estava ocorrendo em toda a Ásia Central uma forte nevasca que impediria o pouso em Tashkent. Já na pista do aeroporto situado num deserto, pediram para não mexer com máquinas fotográficas. Hoje com a internet, avaliando rotas, aeroportos e fotografias de satélite, sem dúvida alguma, estávamos pousados num dos aeroportos do complexo aeroespacial supersecreto do Baikonur, no Kazakistão. Fomos encaminhados para um hangar mais parecido com um galpão de depósito ou até mesmo, com um grande estábulo. Dentro do hangar já estavam passageiros de 4-5 aviões desviados e já pousados. O frio no exterior era de uns 30-35 graus negativos e no interior mesmo com dois latões centrais com fogo, era de uns 5-8 graus, também negativos. Ficamos ali meio empilhados, encostados quase um contra o outro, para se aquecer. No período que ficamos ali, 30-40 horas, houve chá de samovar e algumas fatias de prastôi rliéb. Quando finalmente embarcamos, o Caio insistiu que eu batesse fotografias. Mesmo com a segurança tentando impedir, fiz três fotos. Uma delas com o horizonte e um avião ao fundo, e daí, queriam nos tomar a máquina... Graças à “arguição” do Caio, isto não ocorreu. A viagem teve sequência até Tashkent. O ocorrido depois na peregrinação dos “dois patetas” verde-amarelos, carregando malas nos confins da CCCP, procurando hospedagem no frio que ainda era intenso, é outra história. Acredito que nos tempos de URSS, de brasileiros no polígono do Baikonur, somente o Caio e eu – embora, sem consciência do fato na época.


Foto 2 - Dori num dos aeroportos supersecretos do Baikonur, Kazaquistão, dezembro de 1968.


2) Sibéria 1969 e 1970 “studientcheskie stroítelnye otriady”. - Por duas vezes estive trabalhando na Sibéria, numa região quase seguindo o curso do rio Angará, que sai do lago Baikal e segue para o norte. No inicio do rio junto ao Baikal, existe a hidroelétrica de Irkutsk; depois vem a de Bratsk, a maior do mundo na época. Esta havia sido inaugurada em 1968, um ano antes da minha primeira participação num tipo de projeto similar ao “Projeto Rondon” brasileiro. Nosso grupo tinha umas 100 pessoas, sendo umas 90 soviéticas. De brasileiros comigo estavam o gaúcho Muller, o baiano E. Pavese e o capixaba Edson. Creio que o saudoso amigo Acácio, esteve junto no ano de 1970. Nosso serviço era a manutenção da estrada de ferro, que ligava a cidade e hidroelétrica de Bratsk com a de Ust Ilimsk, na cidade de mesmo nome. A alguns quilômetros desta cidade havia a vila de Nova Iguirma e junto a ela, num platô à beira de um riacho que seria inundado pela nova barragem, estava nosso acampamento composto de seis barracões. Dois deles permanentes; um como refeitório e o outro como administração e depósito; mais quatro barracões-dormitórios de lona desmontáveis, completavam o acampamento. Em relação às demais hidroelétricas, a sequência do rio Angará neste local, era de rio-abaixo, mas como corria para o norte, consideremos, rio-acima. A ferrovia feita dois anos antes sofria acomodações pela cristalização da umidade do solo nos aterros, no inverno - fato comum pela falta de compactação nos verões curtos. No final do verão seguinte, o nível da estrada já era de “altos e baixos”. Nós fazíamos o nivelamento e colocávamos as curvas da estrada novamente nos “eixos”. O trabalho de 12-14 horas por dia era muito cansativo. O dia acontecia da 1h00 da madrugada até às 23h00, em julho. No inverno - não estive lá nesta estação - era o inverso. Folga só aos domingos, quando o ambiente no acampamento era florido de “mocinhas da cidade” (vila). Após o jantar, o acampamento também florescia. Nos trilhos da estrada, durante os 10 minutos de descanso, igualmente, não havia tristeza. Quero voltar prá Bratsk: encontrei no youtube um filme sobre a inauguração e homenagem às gerações que construíram a hidroelétrica de Bratsk em 1968. Primeiro me senti partícipe e depois, tomado pela emoção e nostalgia de uma juventude passada e reascendida nas recordações provocadas pela música e letra maravilhosas de “Praxanie c Bratskom” de Alexandra Pármotova – ela bate forte no meu intelecto e na minha alma. Recomendo ver.


Foto 3 - Dori (no canto direito), Sibéria 1970. Centrando os trilhos nos eixos (ferrovia entre a hidroelétrica de Bratsk e Ust Ilimsk).


Foto 4 - Dori (de lenço na cabeça), Sibéria 1969. Compactação e nivelamento da ferrovia.


Foto 5 – Dori na Sibéria, 1970. Crianças locais pescam após o vertedouro da hidroelétrica de Bratsk.Este local aparece com um comboio de caminhões no filme da inauguração no ‘youtube’.


 Foto 6 - Dori entre uma bielorussa e uma russa durante intervalo de trabalho na Sibéria, 1970.

   

  
Foto 7 – Na ferrovia Bratsk-Ust Ilimsk - 1969. O descanso do trabalhador.




sexta-feira, 18 de setembro de 2015

CANTINHO DA SAUDADE

BIOGRAFIA RESUMIDA DE VÓLIA BRANDÃO

Vólia Brandão proferindo aula na Universidade da Amizade dos Povos



(Escrita e apresentada por Pedro José de Castro, membro da comissão organizadora, na abertura do 1o ENCONTRO NACIONAL DOS EX-ESTUDANTES NA EX-URSS, de 24 a 26 de março de 2000, em Angra dos Reis, RJ)

            Vólia Brandão é filha de Octávio Brandão, alagoano, descendente de índios caetés, e da poetisa Laura da Fonseca e Silva (Laura Brandão).  Nasceu no Rio de Janeiro em 1923.
            Em 1931, toda a sua família foi deportada por causa da militância revolucionária dos seus pais. O único país que os acolheu foi a URSS. Naquela ocasião, a vida lá era difícil, já que o jovem Estado soviético estava implementando a industrialização do país numa conjuntura adversa: uma forte resistência de forças contra-revolucionárias.
            Vólia Brandão terminou, com distinção especial, a escola secundária e começou a estudar na Faculdade de Física da Universidade Lomonóssov, de Moscou. Logo depois, durante a Segunda Guerra Mundial, ela participou do trabalho de cavar trincheiras para soldados e trincheiras contra tanques. Trabalhou no campo nos arredores de Moscou e nos Urais, sob temperaturas de –30oC, debulhando cabeças de girassol. Trabalhou também, durante um ano, numa fábrica de costura, 12 horas por dia, fazendo roupas para soldados e alimentando-se apenas com 600 gramas de pão e água quente. O trabalho mais pesado foi em Lecozagotóvki – trazer, duas vezes por dia, de dentro de um bosque, perto do rio Volga, imensas toras de árvores a uma distância de cerca de 5 km. Seis moças faziam o trabalho de dois cavalos. Tal fato ocasionou danos irreversíveis à sua saúde, razão pela qual não pôde ter filhos.
            Vólia tem muito orgulho de tudo que fez na sua participação para a vitória na luta contra o nazi-fascismo.
            Ela continuou estudando na Universidade. Naquela ocasião os estudantes universitários recebiam a mesma ração de pão de centeio dos operários (600 gramas), que era a única fonte de alimentação.
            Vólia terminou o curso universitário em 1947 na especialidade Física de Baixas Temperaturas, com as mais altas qualificações. De 1946 a 1947 trabalhou no Instituto de Problemas da Física da Academia de Ciências da URSS, dirigido pelo célebre físico Kápitsa. Entre os professores estava Lev Landau, Prêmio Nobel de Física de 1962. Trabalhou diretamente com o Acadêmico Alekseievsky, sendo sua orientada no trabalho de tese.
            Durante três anos, com sua irmã Sattva, Vólia dedicou-se à redação e elaboração dos primeiros dicionários russo-português e português-russo. Dedicou-se também ao trabalho de encontrar as equivalências em russo dos fraseologismos da língua portuguesa como, por exemplo “macaco velho não mete a mão em cumbuca”. Foram seus pais que sempre incentivaram para que ela praticasse e estudasse o português, mesmo estando longe de sua terra natal.
            Durante 10 anos foi professora de Física no Instituto Eletrotécnico de Telecomunicações de Moscou. Trabalhou com semicondutores, elaborou problemas fundamentais para o processo de ensino-aprendizagem na física. Entre outros métodos, elaborou algoritmos para a solução de problemas de física. Teve alunos de todas as repúblicas da URSS, do Vietnã, da China, da Coreia e da Mongólia.
            Em 1961, foi uma das fundadoras dos departamentos de Física na Universidade da Amizade dos Povos Patrice Lumumba. Escreveu seis manuais de Física em russo (com colaboradores). Escreveu também mais dois manuais com o Prof. Gordeev – da Cátedra de Física Teórica –, um dos quais para o curso de “Metódica e Metodologia” para estudantes de Física do 4o ano.
            Na Universidade Patrice Lumumba, além de aulas de Física para estrangeiros na Faculdade Preparatória, ministrou cursos (conferências) para estudantes de engenharia do 1o e 2o anos (Curso de Física Geral) e para estudantes de Física do 4o ano, também (Seminários e Trabalhos de Laboratório). Durante alguns anos foi a encarregada dos exames de formação de tradutores russo-português para estudantes do Brasil e da África.
            No México, ministrou cursos de aplicação da lógica no processo de ensino-aprendizagem nas ciências, para alunos de nível superior. Também deu consultas de matemática, física, lógica e até mesmo sobre problemas de sociologia para estudantes do Instituto Politécnico Nacional e da Universidade Nacional Autônoma do México. Recentemente terminou o livro que seu marido, Fernando Miguelena – matemático já falecido e formado na Universidade Patrice Lumumba – que tinha iniciado sob o título “Fundamentos Científicos de los Modelos”.
            Vólia Brandão foi uma brasileira que se viu obrigada a viver longe de seu país e que soube ir adiante e, sempre caminhar olhando para o futuro.
            A Professora Vólia Brandão recebe, no ENCONTRO DOS EX-ESTUDANTES BRASILEIROS NA URSS, em Angra dos Reis, RJ, 24 de março de 2000, a HOMENAGEM pelo estímulo, dedicação e empenho no processo de ensino e exemplo de vida.

     Vólia entre Gloria e Pedro no 1o Encontro Nacional dos Ex-Estudantes na Ex-URSS
DIA DA CULTURA BRASILEIRA NA RUDN -MOSCOU


Recebemos o e-mail abaixo da nossa representante em Moscou – a estudante de medicina na RUDN, Srta. Rianne Micelli Freitas Noronha, por meio do qual nos comunica sobre a criação do Dia da Cultura Brasileira na Universidade Russa da Amizade dos Povos.
A Diretoria da UERUSS aproveita a oportunidade para parabenizar a colega Rianne por essa importante iniciativa, bem como para reafirmar a nossa disposição de brindá-la, se necessário, com todo o apoio que estiver ao nosso alcance.
Os nossos votos são de pleno êxito aos colegas da RUDN nessa jornada.

A Diretoria da UERUSS

E-MAIL RECEBIDO
Para: Geovanio Menezes
De: Rianne

Ola Geovanio!
Com prazer informo que brevemente pela primeira vez teremos o Dia da Cultura Brasileira na RUDN. Estou enviando o flyer em anexo!

Um abraço