quarta-feira, 30 de março de 2016

VISITA À EXPOSIÇÃO “A UNIÃO SOVIÉTICA ATRAVÉS DA CÂMERA”

Geovanio Menezes
Formação: Engenharia - Universidade da Amizade dos Povos Patrice Lumumba, 1968
Especialização: Perfuração e Exploração de Petróleo e Gás

                                                                 
                                  Geovanio Menezes no VI Encontro em Mairiporã-SP


A Exposição – realizada no Memorial da América Latina - exibiu um acervo de 200 fotografias, em preto e branco, de renomados fotógrafos da Era Soviética, as quais abordam temas referentes ao período de 1956 a 1991. Ou seja, da realização do XX Congresso do PCUS até o fim do Estado Soviético. Um grupo de oito ex-estudantes brasileiros na URSS, residentes no estado de São Paulo, visitou a Exposição e tomou conhecimento do acervo.

Participaram da visita à Exposição os ex-estudantes: Antonio Alberto de Castro, David Guimarães Dib, Geovanio Menezes, Gloria G. Gurrutia de Castro, Maria de los Dolores Freixa Pascual, Maria Helena Wiechmann, Pedro José de Castro e Sílvio Aranha.

 Foto 1: da esquerda para a direita: Geovanio Menezes, Maria Helena Wiechmann, Silvio Aranha, Gloria G. Gurrutia de Castro e Pedro José de Castro.

A despeito de a exposição ter mostrado obras interessantes que enfocam vários aspectos da vida soviética, observamos que ela teve também o objetivo de transmitir aspectos políticos. Isso, na nossa opinião, prejudicou um pouco a parte subjetiva do Evento, na medida em que as conclusões devem ficar por conta de quem está visitando a Exposição. Em verdade, esperávamos encontrar ali um acervo que mostrasse a vida do cotidiano soviético com as conquistas e os eventuais equívocos dos governos naquele período. Seria algo mais próximo da realidade, o que nos permitiria identificar os erros e os acertos do sistema. Fotos que mostram uma realidade pontual, não devem servir de pretexto para generalizações que possam ser questionadas de acordo com a visão de mundo de cada um.

Faltou ali registrar as grandes conquistas da Era Soviética. Por exemplo, nas áreas da cultura, da ciência e da tecnologia.

De qualquer forma, foi gratificante testemunhar a qualidade das fotos e apreciar os aspectos enfocados no acervo, a despeito de ser um registro histórico parcial e incompleto.

Um dia desses, eu estava falando com um colega sobre o desmoronamento da União Soviética e fiquei espantado quando ele disse:A União Soviética caiu por excesso de cultura”!

Seja como for. Mas, considerando apenas o lado das mudanças que verificamos no decorrer do tempo, podemos afirmar: É certo, tudo muda, tudo se transforma nesse nosso mundão!

Foto 2.  Grupo em uma das salas da exposição. Da esquerda para a direita: Pedro José de Castro, Dolores Freixa, Sílvio Aranha, Geovanio Menezes, Maria Helena Wiechmann e Gloria G. Gurrutia de Castro.

Depois da visita à Exposição, fomos comemorar o aniversário da colega Maria Helena Wiechmann no restaurante Bacalhau, Vinho & Cia, onde passamos bons momentos em excelente astral, coroado com papos dos mais amistosos.

Cardápio: Bacalhau à moda da casa, acompanhado de saboroso vinho verde de Portugal – foi esta a escolha de todos. O resto consistiu em desfrutarmos de uma bela tarde em clima de harmonia e muita integração.

Maria Helena recebeu os melhores votos de felicidades daquele grupo amistoso. Não faltou uma Vodka nostoiáshaia e do kontzá, para brindarmos e abrir o apetite. O bolo? Foi escolhido pela Dolores e, claro, partido pela aniversariante sob aplausos. Delicioso! 

Deixamos o restaurante satisfeitos e felizes por termos participado de um evento de união e de companheirismo sadio.

Anexamos abaixo mais uma foto do grupo no Restaurante Bacalhau, Vinho e Cia.

Foto 3 -  Nosso grupo no Restaurante Bacalhau, Vinho & Cia.
Do lado esquerdo: Maria Helena Wiechmann, Geovanio Menezes e Antonio Alberto de Castro.
Do lado direito: Sílvio Aranha, Gloria G. Gurrutia de Castro, Pedro José de Castro e David Guimarães Dib. Dolores fez a foto.


EM TEMPO: No mês de março será o aniversário do Antonio Alberto Dias de Castro. O local para comemorar o evento já está definido: restaurante peruano: El Rinconcito Peruano”.


Geovanio Menezes
Março de 2016



segunda-feira, 14 de março de 2016

V ENCONTRO INTERNACIONAL DA FEDERAÇÃO LATINO-AMERICANA DOS DIPLOMADOS NA RÚSSIA, EUROPA ORIENTAL, ÁSIA CENTRAL E CUBA - FELAPEREACU

ORGANIZADO PELA ASSOCIAÇÃO EQUATORIANA DOS DIPLOMADOS NA RÚSSIA, EUROPA ORIENTAL, ÁSIA CENTRAL E CUBA - AEPEREACU


Período: 17 a 21 de novembro de 2015 – Quito - Equador

Por: Geovanio Menezes
Formado em Engenharia pela Universidade da Amizade dos Povos em 1968


                                             
Geovanio Menezes na abertura do VI Encontro em Mairiporã-SP


PARTE I: CHEGADA E RECEPÇÃO EM QUITO

Participantes no V Encontro dos ex-Estudantes Latino-americanos na 
URSS e Cuba.

O Encontro foi realizado em Quito, capital do Equador, e se desenvolveu em clima de união e camaradagem, onde todos se confraternizaram - representando um testemunho de que os ex-estudantes latino-americanos diplomados na Rússia, Europa Oriental, Ásia Central e Cuba mantêm entre si laços de coleguismo e de solidariedade.

Participaram do evento cerca de 400 pessoas, que se reuniram não só para trocar ideias e experiências, como também para matar as saudades dos tempos de estudantes. O que se via o tempo todo, eram abraços, sorrisos, longos papos resgatando na memória fatos comoventes daqueles bons tempos.

O programa do evento foi exemplar: muito bem planejado. A organização do mesmo ofereceu aos participantes uma acolhida da mais alta qualidade - da recepção no aeroporto de Quito até a acomodação nos quartos dos hotéis.
A delegação brasileira se fez presente com a participação de três ex-estudantes da Universidade da Amizade dos Povos Patrice Lumumba:

Felix Velois Guará Bezerra, com sua esposa Nilva Aparecida Pacheco Bezerra; Geovanio Menezes e Silvio Aranha.

Nossa viagem aérea teve uma escala no aeroporto de Lima, Peru, onde permanecemos por cerca de uma hora e meia - o suficiente para que o colega Silvio Aranha, preocupado com a altura da cidade de Quito, providenciasse a compra de chá de folha de coca, muito usado pelos povos andinos para combater o efeito da falta de oxigênio em grandes alturas.

Registramos esse momento na foto abaixo:

No aeroporto de Lima/Peru. Da esquerda para direita: Silvio Aranha e 
Geovanio Menezes.

Chegamos a Quito às 14 horas do dia 16 de novembro de 2015, um dia antes da abertura do evento, como forma de tentar adaptar-nos às alturas. No aeroporto, ex-estudantes equatorianos nos recepcionaram e ajudaram com o transporte que nos levou até o hotel Hilton-Colon, de Quito, onde já havia à nossa disposição quartos amplos e confortáveis.

Na mesma tarde, fizemos um passeio pelos arredores do hotel em passos lentos, um cuidado necessário por causa dos efeitos provocados pela altura da cidade de Quito relativamente ao nível do mar. Passeamos pela Avenida Rio Amazonas e adjacências, onde tomamos os primeiros contatos com a capital do Equador.

É importante ressaltar o carinho e a atenção proporcionados a nós pelo presidente da AEPEREACU, José Hidaldo, e pelos ex-estudantes Ernesto Altuna Villanarin e Gonzalo Parra Flores. Gonzalo - Médico com grandes méritos na medicina equatoriana - fazia parte do Trio Los Latinos, que tanto divulgou na União Soviética a música latino-americana em parceria com os peruanos Augusto Mendoza Piñeda e Beyly Somocursio.

Gonzalo continua sendo um eterno apaixonado pela música e me presenteou com um dos seus CDs, que guardarei com muito carinho.

Encontramos ex-colegas do Peru, como o Rodolfo Zamalloa, que foi grande amigo de muitos brasileiros na Universidade da Amizadde dos Povos. Esse colega apresentou uma palestra da maior importância sobre o seguinte tema: A Casa Auto Sustentável do Futuro, que usará, basicamente, a energia solar. Rodolfo faz parte da primeira turma de formandos da Universidade Patrice Lumumba, na especialidade de Engenharia Mecânica.

O encontro teve conotação técnico-cientifica da maior importância. Silvio Aranha sempre manifestou o desejo de encontrar-se com Estela, uma colega equatoriana com a qual estudou a língua russa na Faculdade Preparatória e que fez o curso de Engenharia Mecânica.

Foi fácil, pois todos os ex-estudantes do Equador a conhecem pelos bons trabalhos prestados ao país, sendo ainda catedrática na Universidade de Quito. Sílvio encontrou-se com Estela, começando ali um longo papo com muitas recordações e emoções.

Mantivemos contato com ex-estudantes de 25 países, num clima de camaradagem e troca de experiências. As conversas abrangeram as causas comuns, enfocando recordações e ocorrências interessantes durante nossos tempos de estudantes em terras soviéticas.

Na parte 2 – vamos enfocar a cerimônia de abertura do evento, que ocorreu na noite do dia 17 de novembro de 2015.

Geovanio Menezes (Dez/2015) 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

TRABALHO DE FORMAÇÃO DO GRUPO FECHADO NO FACEBOOK

Ueruss Rússia

Geovanio Menezes na abertura do VI Encontro em Mairiporã-SP, 2014


Estimados colegas da grande família dos ex-estudantes na Rússia e União Soviética

Tenho acompanhado a evolução do nosso blog desde a sua formação no início de 2015 e confesso que estou muito satisfeito com o desempenho dos nossos colegas, que atenderam ao apelo de publicar tantas coisas bonitas como narrações de eventos importantes ocorridos durante nossa vida de estudantes em terras russas e soviéticas. A cada postagem - que leio com muito prazer - penetro na alma de cada um que escreve textos tão agradáveis e emocionantes.

Lembro-me da nossa luta e dedicação para formar o nosso blog. Todos empenhados e com vontade de criar algo que servisse de instrumento de interação dentro dessa grande família.  Hoje, vemos colegas que relatam suas experiências e divulgam fatos vinculados à história das instituições onde estudaram, na Rússia ou em ex-Repúblicas Soviéticas.

Temos mostrado que sim, é possível unir aqueles que estudaram na Rússia e na União Soviética independentemente de conceitos políticos ou religiosos. Tudo o que a nossa Associação tem feito está fundamentado na convicção de que temos muita coisa em comum: coisas do nosso convívio universitário, experiências comuns, histórias engraçadas que estão guardadas em nossas memórias e que nos acompanham pelo caminho das nossas vidas – são tantas evidências de tamanha conotação, que quando divulgadas em nosso blog causam satisfação pessoal e recordações que marcaram nossas vidas.

Para isso a nossa Associação existe. Ela não tem outro objetivo senão o de agrupar, de unir e de divulgar as coisas que nos são comuns.

No dia 5 de dezembro de 2015, o Grupo de Coordenação do nosso blog reuniu-se na cidade de São Paulo para a criação de um Grupo Fechado no facebook, exclusivo para aqueles que estudaram na Rússia e na URSS.

Os objetivos são os mesmos do nosso blog: cultivar a amizade e a camaradagem de todos os colegas que estudaram em solos russos e soviéticos, resgatando os nossos pontos comuns e evitando qualquer conotação de ordem política ou religiosa.

No final do dia 05 de dezembro de 2015, o nosso grupo estava formado e fazendo parte do universo do facebook, como mais uma forma de interação entre os membros dessa grande família:

Ueruss-Rússia

Acessem o nosso Grupo Fechado e encontrem-se. Podem sorrir e chorar de emoção. Uma coisa é certa: nos contatos entre os membros dessa família virão à tona coisas fantásticas guardadas no coração e na mente de cada um.

Vejam abaixo os colegas do grupo de coordenação do nosso blog, que depois dos trabalhos durante o dia 05 de dezembro de 2015 dirigiram-se à Pizzaria Mancini, na Rua Avanhandava, e lá ficamos batendo papos agradáveis até quase à meia-noite.

Obrigado – Dolores, Lenilda, Anelise, Pedro, Silvio, Emerson – pelos esforços de cada um de vocês em todos os trabalhos efetuados para esse fim (ao Silvio, um agradecimento à parte por gentilmente oferecer, sempre, a sala de reunião do seu escritório para a realização das nossas reuniões de trabalho).

Um agradecimento especial ao David, Elenice Regina, Antônio, que nos deram a honra de participar no jantar na Família Mancini, onde fizemos homenagem aos aniversariantes: David Guimarães Dib e Pedro José de Castro.

Foto no restaurante Mancini, para marcar esse nosso encontro.

Foto 1- Da esquerda para a direita: Antônio, Dolores, Lenilda, Elenice Regina, Anelise, Geovanio, Pedro e David.

NOTA: Essa fotografia tem uma particularidade. Nela se vê a marca do grande Rembrandt: uma fonte de luz concentrada em uma parte dos quadros pintados por ele.


Geovanio Menezes
06 de dezembro de 2015

Formado em 1968 pela UDNPL - atual RUDN
Especialidade: Engenheiro de Minas e Petróleo
Residência atual: São Paulo – SP

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

TEMPOS DE ESTUDANTE NA URSS – DORI C. BARBIERI - Crônica 5 – Parte II

Crônicas variadas – 1968-1974

Crônica 5 – Uma aventura no deserto do Kirguistão, 1972 – Parte II
(Continuação da Parte I)

O pai e o irmão do colega kirguiz se aproximaram do carro e conversaram um pouco na língua deles, não em russo. Em seguida descemos do carro, nos cumprimentamos e fomos convidados a adentrar para uma antessala, cujas paredes e piso estavam forrados de tapetes e almofadas. Lá sentamos no chão ao redor de bandejas com alimentos. Ali comemos e bebemos por aproximadamente uma hora: sucos, frutas e passas, legumes, pastas e as partes de uma ovelha, aparentemente, as menos nobres. Passado este tempo, pensei que era tudo o que tínhamos que fazer naquela noite e, em breve, voltaríamos para Páhta-Aral. Mas não, na sequência nos convidaram para outro recinto, separado na sua passagem por uma cortina. Neste outro lado havia outra sala semelhante, mas maior que a primeira. Só que desta vez o ambiente se apresentava mais solene, até porque ali estavam sentados no chão seu avô e um tio, com mais alimentos postos no chão ou próximo ao chão.
De mulheres, nada! (Certamente, as que existiam estariam escondidas por ali perto, e não seriam pagãs. Mas sem dúvida, que havia mulher, havia!) As carnes oriundas do animal sacrificado durante o dia pareciam ser mais nobres, ao menos de melhor aparência que as servidas na sala anterior. Quase toda a interlocução com os nativos era feita por mim, pois o Mbui, na sua tensão ou deslumbramento, parecia estar distante. Comemos à exaustão e quando pensei ter o cerimonial chegado ao fim, meu colega kirguiz pediu para esperar um pouco mais; foi para os fundos e eu pensei: agora vai apresentar a esposa e filhos – não, não foi isto que aconteceu! Ele volta com uma linda bandeja de prata e sobre ela, a cabeça preta da ovelha cozida na água, com aquele focinho longo, com olhos e tudo e a depositou bem na minha frente. (Báh! – ... e o rosto do Mbui empalideceu) Eu não entendia! – O kirguiz disse então que, para encerrar o evento eu deveria distribuir entre os presentes um pedaço daquela iguaria - menos mal, pensei! Eu teria a oportunidade de escolher as partes menos exóticas. Escolhi então os músculos das bochechas, cuidando que também sobrasse, para mim, parte deles. Foi o que fiz. Tudo estaria terminado mas, novamente, eu errei! Falou meu colega kirguiz: - agora você deve servir ao Mbui e a si próprio as orelhas, (aquelas coisas pretas horríveis e cartilaginosas, porém mais deglutíveis que os olhos), pois hoje, comendo as orelhas diante dos mais velhos, significa que nós, os mais novos, seremos sempre receptivos aos conselhos dos mais velhos. Eu também comerei, completou. Meio que comemos, meio que mascamos partes daquelas orelhas.
Depois disto nós estávamos prontos para retornar quando, ainda na sala, o kirguiz disse que iria apresentar sua mãe: através de uma passagem para outro ambiente, de onde haviam trazido a bandeja com a cabeça da ovelha, entre duas cortinas entreabertas, mas fixas na parte superior, aparece um rosto de mulher asiática, da sua mãe; e depois, mais outro, certamente da sua esposa; e depois mais outros rostos menores, dos filhos, entre discretos sorrisos e cochichos. (Creio que já estavam a nos espiar havia algum tempo, através de alguma fresta – ao Mbui, com certeza!) Esta parte foi breve e em seguida, saímos e retornamos para a pousada já de madrugada, momento em que me senti então, uma pessoa de sorte.
 Pela tensão, respeito e escuridão, não fotografamos nada naquela noite.
Obs.: O cerimonial descrito tem alguma coincidência com certos ritos praticados nos dias que antecedem o final do período do Ramadã, mês sagrado dos muçulmanos, no qual eu, filho dos muito devotos, Cedalina e Theodoro Barbieri, tive a felicidade de ser um dos participantes sem ser considerado, depois, um herege.
Foto 2 – Dori nas estepes de Karakalpakya, frente às águas do degelo do planalto do Pamir no rio Sirdarya, que desaguava no antigo Mar de Aral – 1972 (região por onde passou Marco Polo na segunda metade do século XIII)

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

TEMPOS DE ESTUDANTE NA URSS – DORI C. BARBIERI - Crônica 5 – Parte I

Crônicas variadas – 1968-1974


Os anos vividos por mim como estudante na URSS, na Universidade Patrice Lumumba, propiciaram oportunidades de vivenciar situações, embora ocorridas a quase meio século, ainda permanecem um tanto quanto exóticas, apesar da velocidade com que acontece a desmistificação deste tipo de ocorrência. Eu as considero como uma bagagem da vida, fundidas no mérito e na sorte. A internet tem resgatados situações passadas, que em reavivando minhas lembranças e emoções, justificam deixá-las aqui registradas.

 Foto 1 - Xanxerê, SC -1974: retorno ao antigo lar do Dori, com os pais Theodoro e Cedalina, mais a tia Dozolina, que sempre pediram que escrevesse alguma coisa sobre a URSS e eu não lhes atendi em vida. Minha homenagem agora, para eles.

Crônica 5 – Uma aventura no deserto do Kirguistão, 1972 – Parte I


Na primavera e verão no hemisfério norte, entre os meses de abril e setembro de 1972, a população do vilarejo de Páhta-Aral – sede da fazenda coletiva (kolhóz) de mesmo nome na república soviética do Kazaquistão, próximo a uma tríplice fronteira com o Uzbequistão e o Kirguistão – ficara atenta e curiosa com os novos visitantes estrangeiros, estagiários do curso de agronomia vindos da capital do país, a distante Moscou. Alguns deles realizavam suas atividades nos 20 mil hectares de plantações, setenta por cento das quais de algodão; para outros estagiários, entre os quais eu, as atividades ocorriam junto à Estação Agrícola Experimental local conduzindo as pequenas lavouras de testes e nos laboratórios. Além dos estudantes estrangeiros de Moscou, também faziam estágio alguns estudantes nativos das antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central. A atenção da população local para conosco talvez se devesse ao fato histórico de que, na segunda metade do século XIII, Marco Polo passara por ali, consolidando o caminho-da-seda. Agora chegou a vez de outros estrangeiros “reabrirem” novamente a rota-da-seda!
Certo dia, no mês de agosto, um estagiário da estação experimental, cuja família morava na república vizinha do Kirguistão, com o qual eu mantinha um relacionamento distante mesmo nos vendo pelos corredores todos os dias, surpreendentemente me convidou e pediu-me que reservasse algum tempo para, junto com ele, visitar a casa dos seus familiares.
O kirguiz sempre se comportava de forma muito reservada para comigo e com os outros estrangeiros que lá, temporariamente, estavam fazendo seus estágios. A casa da família dele ficava bem distante de Páhta-Aral, nas estepes (pradarias) que eram quase um deserto. Se fôssemos adiante, bem além da casa, iríamos encontrar o Planalto do Pamir, por onde passou Marco Polo. Nesta visita, ele providenciaria tudo e iríamos com seu carro. Surpreso, eu lhe perguntei, por que era eu o convidado. A resposta foi que não me preocupasse, pois meu amigo africano da República do Záire, o Mbui Cloude, iria também.

Na noite daquele dia na pousada, o Mbui me disse que o tal estagiário kirguiz o vinha convidando, fazia dias, para esta visita e ele, por temer alguma surpresa, condicionava a aceitação, à ida de mais um outro colega seu. Cheguei à óbvia conclusão que o verdadeiro convidado não era eu e sim, o meu amigo africano. Entretanto, fiquei contente com a oportunidade de conhecer um pouco mais da região e decifrar a cabeça do colega nativo. Depois de uns vinte dias sem se ouvir mais menção sobre o assunto, pensamos que o nosso futuro anfitrião havia recuado do convite, mas não. Num dos dias subsequentes ele nos pediu que, no dia seguinte, após o trabalho na estação experimental, nós dois não retornássemos de ônibus para a nossa pousada, que ficava a uns 20 km do local, pois iríamos visitar seus familiares com seu carro e participar de uma solenidade ou coisa parecida. Depois, nos traria de volta até a pousada.
Foto 2 – Mbui e Dori: estágios na República da Moldávia, próximo à cidade de Dubassar, 1971

No dia seguinte, ficamos esperando por ele após o trabalho na estação experimental. Deu 19 horas... 20 horas..., e nada do colega. (Um novo ônibus para a nossa pousada só partiria no dia seguinte!). Passava das 20 horas, já estava um pouco escuro – era verão – quando ele apareceu com o carro e pediu para esperarmos um pouco mais. – Mas, por que? - Porque nós precisamos chegar à casa já no escuro total, respondeu o kirguiz - !?!?!?... (O Mbui tinha razão em exigir a companhia de alguém mais, pensei). Embarcamos no volga - carro equivalente a um opala, na época no Brasil - e depois de rodar longo tempo por uma estrada de asfalto compactado, sem ter visão do que havia por onde estávamos passando, chegamos a um lugar com três ou quatro tendas, ou casas mal iluminadas que, mesmo com ajuda da luz das estrelas e da lua, eu não conseguia definir. Foi possível sentir que ali próximo havia ovelhas e também cavalos e asnos, abundantes na região. Eu notava que o Mbui estava muito mais preocupado do que eu. A partir de então, ele quase não mais falou – no seu semblante somente se viam aquelas duas bagas de olhos cintilarem sobre seus lábios trementes!
 (Continua na parte II)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

VISITA À UNIVERSIDADE RUSSA DA AMIZADE DOS POVOS - II

 
 
Oswaldo no VI Encontro - Mairiporã-SP

Oswaldo Mendes
Formado em Engenharia Mecânica
Ano de formatura: 1967

PARTE II - Novo Campus da Universidade Russa da Amizade dos Povos - RUDN

Depois de visitar o antigo corpus da Universidade, que foi objeto da Parte I do trabalho, gostaria de lhes apresentar, nessa Parte II, a visita que fiz ao novo Campus da Universidade que foi fundada com o nome de Universidade da Amizade dos Povos Patrice Lumumba – UDN – mas que, após a dissolução da União Soviética, passou a ser chamada de Universidade Russa da Amizade dos Povos – RUDN.
 
Considero que os colegas que estudaram e viveram nas dependências do novo Campus, terão recordações valiosas dos tempos de estudantes naquela bonita área acadêmica.
A minha visita à Universidade se deu em meados de agosto de 2015, época de férias acadêmicas de verão na Rússia, assim como em todo território Europeu. Daí a razão de haver tão poucos alunos ou funcionários nos pátios mostrados nas fotos a seguir.

                   
Foto 1- Entrada principal da universidade – RUDN (prédios da Administração e Reitoria)




15 de outubro de 2015
Oswaldo Mendes

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

VISITA À UNIVERSIDADE RUSSA DA AMIZADE DOS POVOS - I

Oswaldo no VI Encontro - Mairiporã-SP


Oswaldo Mendes
Formado em Engenharia Mecânica
Ano de formatura: 1967


PARTE I -  Donskoi Proiezd, Boulevar, Obshejitie da Pávlovskaya, Danilovsky Rynok e Momentos Históricos da Fundação da Universidade da Amizade dos Povos

Depois de algum tempo, eu e a minha esposa Lyudmila Yakovleva Mendes, decidimos fazer uma viagem a Moscou com o objetivo de rever os familiares da minha companheira de tantos anos, passear pela cidade, rever aquelas localidades que frequentávamos no nosso tempo de estudante e, claro, rever as instalações da nossa Universidade, em cujos bancos recebemos ensinamentos valiosos que serviram de base para alavancar as nossas vidas profissionais.

Deixei Moscou, de volta ao Brasil logo após a defesa da tese de diploma em 1967, acompanhado da minha aliada e esposa.

De 1967 até a presente data, desenvolvi a minha vida profissional como engenheiro mecânico na área de Turbinas Térmicas. Realizei trabalhos no setor estatal e privado, e tive a honra de transmitir os bons conhecimentos lá adquiridos aos alunos das faculdades de Engenharia da Universidade Católica de Petrópolis e Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro. Nessa atividade profissional, alcancei o posto de Chefe da Cadeira de Termodinâmica Aplicada e de Máquinas Térmicas.

Nesse período de 48 anos, o mundo mudou muito: Moscou mudou, nossa Universidade também mudou e, como tudo, nós também mudamos.

Grande parte do meu tempo em Moscou foi dedicado a visitas às instalações da Universidade, dando enfoque especial àquelas que eram utilizadas pela Universidade da Amizade dos Povos Patrice Lumumba na década de 60.

Como a quantidade de fotos é expressiva, vamos apresentar esse trabalho por partes. Primeiramente vou enfocar minha visita ao primeiro corpus da nossa Universidade, situado na Piaty Donskoi Proiezd. Especificamente, ao alojamento da Pavlovskaia, ao Boulevar por onde caminhávamos diariamente no trajeto entre a Pavlovskaia e a Donskoi, e vice-versa.
  
O prédio da Donskoi, onde recebemos tantos ensinamentos e onde batíamos longos papos depois das aulas, principalmente na stolovaia e no pátio ao ar livre, lá está ele, exibindo a arquitetura majestosa que me sensibilizou tanto ao voltar a subir aqueles degraus de entrada, repetindo o mesmo gesto de uma rotina que fez parte da minha vida durante os cinco anos em que lá estudei.

Foto 1 - Prédio principal da Universidade na década de 60, na Piaty Donskoi Proiezd - hoje chamada de Ulitsa Ordjonikidze.

Observem, colegas, o estado atual do Boulevar onde as árvores, naquela época, eram de pequeno porte e, agora, são de grande porte, oferecendo agradáveis sombras a quem por ele passa.

Foto 2 – Boulevar que ligava o Prédio Principal da Universidade à Residência dos estudantes na  Pavlovskaia Ulitsa – nosso caminho de todos os dias.

O prédio da Pavlovskaia continua imponente e tenho certeza absoluta que aqueles que lá viveram sentirão saudades ao olhar essas fotos.

Foto 3 – Prédio: o alojamento estudantil onde moramos na Pavlovskaia Ulitsa.

Até aquele mercado, chamado “Danilovsky Rynok”, outrora pequeno e simples, foi reconstruído e transformou-se em uma grande área de comercialização de produtos de primeira necessidade. 

Foto 4 - Após o Boulevar, está o Danilovsky rynok- nos anos 60 e 70 era apenas um mercadinho humilde, hoje sofisticado mercado frequentado por carrões.


Duas fotos de alto interesse histórico registram os momentos da Fundação da Universidade da Amizade dos Povos no ano de 1960, onde, na primeira, o chefe do governo da URSS, Nikita Kruschev, fazia o seu discurso na cerimônia e na segunda, vê-se Nikita Kruschev junto com o primeiro Reitor da Universidade, Serguei Rumiántsev.

É a metamorfose da vida: tudo muda com o tempo. O corpus atual da Universidade, que naquela época estava sendo construído, hoje é um colosso com uma grande área arborizada no lado esquerdo da Lenisky Prospekt, no sentido ao bairro. Todas as construções dos grandes blocos das diferentes faculdades e das residências estudantis foram feitas com uma arquitetura moderna, como merece uma grande instituição de ensino moderno e avançado.

Essa parte do atual corpus da Universidade será objeto da Parte 2, a ser postada no nosso blog oportunamente.

Colegas, vocês não imaginam o estado da minha alma quando visitei aqueles lugares onde passei o melhor período da minha juventude. Certamente, o mais encantador da minha jornada estudantil.


Foto 5 - Momento histórico: o chefe do governo da URSS Nikita Krushev profere o discurso na Fundação da Universidade da Amizade dos Povos.

Foto 6 - Momento histórico da Fundação da Universidade da Amizade dos Povos em 1960, onde se pode ver o chefe do governo da URSS, Nikita Krushev, e o primeiro reitor da Universidade da Amizade dos Povos, Serguei Rumiántsev.


Nos próximos textos abordaremos outros temas relacionados com a minha visita à Universidade Russa da Amizade dos Povos (RUDN), ex-Universidade da Amizade dos Povos Patrice Lumumba, e a outros pontos atrativos da cidade de Moscou.

15 de outubro de 2015
Oswaldo Mendes